Você é feito de mídia

Você é feito de Mídia

A palavra mídia tem origem no termo latino medium – que significa meio, e era usada no final do século XIX para designar os inventos mais recentes do período: o telégrafo, o rádio e a fotografia. O fato desses inventos serem utilizados para viabilizar a comunicação com pessoas distantes – tecnologia impensável para a época, remetia aos médiuns das sessões espíritas, que também surgiram naquela mesma época.

É por meio da mídia que experimentamos o mundo. Nossos assuntos são pautados pelo que vemos nos jornais, na televisão, nas redes sociais, nos sites que gostamos. De alguma forma, nossa experiência em sociedade está relacionada a alguma mídia, e isso não é decorrência da recente “digitalização” da nossa vida. A experiência do mundo por nós, seres humanos, sempre dependeu de algum tipo de dispositivo.

Adriano Rodrigues, doutor em Comunicação pela Universidade de Lisboa, defende que a primeira mídia existente foi a linguagem. Segundo o professor, é por meio desse dispositivo que todas as experiências que vivenciamos são constituídas. A linguagem constrói o nosso mundo e nos permite, ao mesmo tempo, interagir com ele e com todas as coisas. É só lembrarmos dos homens da caverna que faziam desenhos nas paredes para expressar atividades ou costumes. O desenho, a fala e a escrita, e ainda as belas-artes eram as nossas mídias antes de surgirem os veículos de comunicação, no século XIX. 

Para o senso comum, e em uma definição bem simplista, mídia é um veículo de comunicação que leva informações aos indivíduos. Daí temos jornais,revistas, rádio, televisão, cinema, outdoors, busdoors, portas de banheiro, mídias digitais. O que, afinal, não é mídia hoje? Qualquer lugar que sirva como suporte para passar uma mensagem é.

Por aqui, o primeiro veículo de comunicação foi o jornal “Correio Braziliense” ainda na época do Brasil colônia. Mais tarde, com a chegada da família real, a imprensa régia se instalou no país. Como sociedade brasileira já nos desenvolvemos com um meio de comunicação que selecionava quais eram as notícias que precisávamos saber. Consequência disso é que hoje o cidadão comum entende que as questões destacadas pelos meios de comunicação são as mais importantes. São as questões que discutimos no jantar de família, nas mesas de bares, é por meio delas que enxergamos como o mundo é ou deixa de ser.

Mas não seria um contra senso pensarmos que justamente as questões que estão nos meios de comunicação estão lá justamente por serem fatos fora da curva e por isso merecerem destaque? O crime ultra violento só está na primeira página porque é algo difícil de acontecer. A crise do país X ou Y, o preço da gasolina que aumentou, o míssil que a Coreia disparou, são fatos que fogem da normalidade e merecem algum destaque. Nossos olhos leigos, enxergam que a normalidade é o caos, sentimos medo de sairmos na rua e sermos brutalmente assassinados, nos preocupamos com os refugiados.

Apesar de a mídia ser a forma com a qual experimentamos o mundo, o mundo não é o que está na mídia. Como, então, perceber as questões que não estão sendo noticiadas nos meios de comunicação? Onde as minorias são representadas? Aquela guerra civil na África que dura anos e ninguém sabe? O genocídio do Camboja? Como podemos entrar em contato com todas essas questões? Será que o mundo é realmente globalizado ou temos essa sensação por causa do que está nas mídias mundiais?

Outra reflexão importante: por trás dos veículos de comunicação existem empresas, com interesses que muitas vezes não são os mesmos que os seus. Se nós experimentamos o mundo por meio desses veículos, que informações as empresas tem interesse em que a gente não saiba? Como essa seleção de informações que consumimos é feita?

Essas questões não se esgotam, e muito menos possuem respostas objetivas. No entanto, elas nos ajudam a desenvolvermos um olhar muito mais crítico a cada vez que nos depararmos com as seleções de informações nas mídias a que temos acesso. E é sempre importante lembrar: informação não é conhecimento.

 

Referências:

Palestra Alain de Bottom: “On the media”

 

Artigo: “Afinal, o que é a mídia?
Autor: Adriano Rodrigues

Philosopher’s mail – Como seria se os filósofos escrevessem notícias?

 

 

Juliana Borges

Comunicóloga, especialista em comunicação pública e processo legislativo, produtora de conteúdo e analista de mídias sociais, relações públicas de coração.

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