Catraca-Livre: como ganhar números e perdê-los com o mesmo método

Há muitos anos não há um currículo mínimo de formação de jornalistas. Aliás, em 2009 a obrigatoriedade de formação de nível superior em Jornalismo caiu. Para ser jornalista, não é mais preciso se formar em Jornalismo. Tanto faz também, já que Ética nunca foi uma disciplina obrigatória. Há, sim, instituições formadoras de jornalistas que incluem a disciplina na grade. Mas vai saber se isso faz diferença também. A única certeza que temos de tendência em jornalismo é o modelo caça-clique.

Se num momento o veículo pode faturar muito com o modelo acima citado, noutro pode ver sua imagem desgastada e seriamente questionada pelo público. Já se questiona muito a credibilidade da imprensa, especialmente a brasileira. Arriscar em modelos efêmeros pode ser um salto paro o abismo. O Catraca Livre, criado por Gilberto Dimenstein, deu inúmeros exemplos ao longo desta terça-feira (29) de como não fazer jornalismo. Ensinando, na prática de erros, como a cobertura de tragédias deve ser cuidadosa, especialmente apurada e empática. Sim, empática.

A queda do avião da delegação do Chapecoense, time de futebol que seguia para a Colômbia para disputar a final da Copa Sulamericana, claramente é notícia. Morreram quase todos que estavam à bordo. Jogadores, membros da comissão técnica, dirigentes e mais de 20 profissionais de imprensa de diversos veículos. Não é preciso um esforço sequer para imaginar a comoção entorno da tragédia. É natural do ser humano se solidarizar em momentos como estes. Mas a mídia se aproveita disso, sempre fazendo conteúdo de alto teor sensacionalístico.

Entretanto, vivemos em uma era onde a comunicação não é mais vertical. Mesmo sendo de massa, estamos dispostos de forma horizontalizada na cadeia comunicativa: emissores e receptores se deslocam nesta cadeia. A internet proporciona isto. Não há mais espaço para se lançar de modelos de comunicação e esperar que o público os consuma calado. Todos estão atentos e munidos de ferramentas para ir de contra. É importante que os veículos, jornalistas e demais produtores de conteúdo se atentem ao feedback em tempo real dado por seus consumidores. Isso tem que ser logo, tão rápido quanto a velocidade de propagação de informação na web.

Case Catraca Livre

  • Matérias insensíveis e sensacionalistas.
Matérias publicadas pelo portal Catraca Livre na página do Facebook ao longo da manhã, assim que foi informado o acidente com a delegação do Chapecoense
Matérias publicadas pelo portal Catraca Livre na página do Facebook ao longo da manhã, assim que foi informado o acidente com a delegação do Chapecoense
  • Reação dos leitores
reacao-dos-leitores
Comentários negativos tomaram conta da página do Catraca Livre no Facebook logo cedo.

A reação dos leitores deve ser considerada, sim. Se você propõe a entrar para espaços onde é permitido comentários, você indica estar aberto ao diálogo. É preciso ouvir, é preciso responder, é preciso refletir. Se existe um grande fluxo de críticas em relação ao conteúdo produzido, se faz necessária, de emergência, a reflexão.

  • Desculpa, mas…

lutodesculpas

E não bastasse terem mantido a mesma postura por boa parte do dia, mesmo sendo criticados e questionados segundo a segundo, o editor-chefe lança mais um pedido de desculpa. Dessa vez se colocando como um premiado jornalista, também sujeito a erros, e mais uma vez colocando a responsabilidade na interpretação dos leitores “peço desculpas SE as reportagens feriram as pessoas”. Não estava óbvia a insatisfação do público?

premiado

Vários pedidos de desculpas sem realmente pedir desculpa. Dizendo que “foram mal interpretados” ao “tentar fazer conteúdos de relevância jornalística”.

Resultado

Claramente há um discurso inflado, inclusive boatos sobre declarações supostamente dadas pelo Catraca Livre, fomentado pelas diversas vezes em que o veículo tomou partido em situações políticas, de gênero ou religiosas. Há quem já odeie o veículo pela pauta dele. A questão foi crescer em cima de um discurso de amor, respeito e tolerância e em um momento de comoção esquecer completamente estes princípios. O jornalismo deve ser empático. Entender a gravidade de certas situações. Deve apurar, informar, mas sem expor além do necessário.

Ao longo do dia, o número de seguidores caiu exponencialmente. Chegando a menos 12 mil seguidores por hora. O último pedido de desculpas veio após a grande pressão que os números causaram e ainda assim não foi suficientemente humilde em reconhecer e então reparar os erros.

notaoficial

E claro, rompimentos são inerentes a este tipo de situação. Refletir, apurar, analisar, respeitar sempre! O jornalismo tem que prezar por isso. O case de hoje foi o Catraca Livre, mas nenhum outro veículo está isento disso, não.

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