Você é o que você consome

Semana passada fui ao Festival Internacional de Cinema de Brasília e assisti um documentário francês chamado “Em Busca de Sentido” (En Quetê de Sens). A História é sobre dois amigos que viajam o mundo entrevistando cientistas, filósofos, biólogos, xamãs, gurus, ativistas, iogues para tentarem entender o que está acontecendo com o mundo e quais são as possíveis soluções. O filme não permite que as pessoas saiam da sala de cinema sem fazerem uma reflexão. Esse texto é o resultado dessa reflexão somada a textos, vídeos e outros materiais aos quais fui exposta nos últimos tempos.

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publicidade de ar puro vendido por empresa canadense

Se você acha que nada está acontecendo com o mundo, talvez esse texto não seja para você. Se você acha normal comer refeições que quase não contém comida de verdade, se você acha normal as pessoas comprarem água e ar (acredita que agora a moda é vender ar puro??? http://ciclovivo.com.br/noticia/startup-canadense-esta-vendendo-ar-puro-enlatado-para-china/) e toda uma indústria ser desenvolvida ao redor disso, se você considera natural as grandes empresas estarem envolvidas na política, ou ainda, se você tem dificuldades de conviver com as diferenças de raça, gênero, classe social, orientação sexual, crenças, ou mesmo gosto musical, então, certamente esse texto não é para você.

 

Mas antes de desistir, me dê apenas uma chance de plantar uma sementinha de dúvida aí na sua cabeça:

Sabe aquela grande rede social da qual a maior parte de nós fazemos parte? Sim, sua avó, sua tia, você, seus amigos e aqueles adolescentes fazem parte dela. Essa rede é uma empresa e, como você não paga nada para acessá-la e “se conectar” com os seus amigos, o que ela está ganhando? Já parou para pensar até que ponto o Facebook interfere na sua vida?  A rede tem acesso aos dados, gostos, perfis de nada menos do que 80% dos brasileiros. Por si só, isso já é um imenso e completíssimo banco de dados que pode ser vendido. Mas se eles vendem esses dados, o dinheiro entra uma vez e pronto. Não, a empresa quer ganhar dinheiro continuamente. Assim, Mark Zuckerberg desenvolveu o tal do algoritmo. Tenho certeza que você já ouviu falar disso, mas talvez não tenha percebido toda a profundidade e as consequências de estar atrelado a ele. Em termos muito simples, um algoritmo é uma sequência de procedimentos que devem ser executados para solucionar problemas ou resolver tarefas. O algoritmo do Facebook foi desenvolvido para segmentar cada vez mais o conteúdo a ser mostrado para o usuário e, com base nos gostos, preferências, tempo de leitura nas páginas, cliques, curtidas e comentários, mostrar um conteúdo cada vez mais relevante para quem está acessando a plataforma.

Até aqui tudo bem, certo? Bem… nem tanto. O problema de sermos expostos somente às coisas que gostamos em uma escala cada vez maior é justamente o que gera uma intolerância cada vez maior. Em uma rede social da magnitude do Facebook e com a tecnologia cada vez mais presente, nossas vidas migraram para os dispositivos móveis, e é nas redes sociais que discutimos política, que expressamos nossa opinião sobre o caso de estupro mais recente, que comentamos o filme que gostamos ou que mostramos nossa última viagem para os amigos.

É lá, também, que muitos adolescentes estão formando opiniões e colhendo impressões sobre o mundo. Se você é democrata, o Facebook vai te mostrar publicações de amigos que tem a mesma linha de pensamento, vai sugerir textos, vídeos, infográficos que corroboram o seu ponto de vista. Sua timeline será composta de 95% de postagens democratas e você vai achar cada vez mais que a sua opinião é a mais adequada com tantas pessoas que você considera e veículos de informação confirmando e argumentando a favor. Sem acesso a bons conteúdos que contestem nossas certezas, vamos educando as pessoas a serem intolerantes, arrogantes, pouco receptivas, e a valorizarem cada vez menos o respeito.

O Facebook é uma empresa e portanto o maior objetivo deles é o lucro. Em 2016 Mark Zuckerberg anunciou que, do faturamento de 7 bilhões de dólares, 6,82 bilhões são provenientes da publicidade e eles ganham dinheiro vendendo os SEUS interesses, gostos, opiniões para outras empresas. Em troca, lhe oferecem uma plataforma de conexão digital com amigos e conhecidos. Portanto, para o Facebook pouco importa se você é de direita ou de esquerda, se é gay, hétero ou trans, se é branco, preto ou amarelo. Para o Facebook você é apenas um consumidor que deve ter acesso à coisas que confirmem aquilo que você já pensa. Será que vale a pena gastar tanto tempo, energia, desfazer amizades para deixar Zuckerberg mais rico?

E não são só as redes sociais e a a indústria da tecnologia que deixaram de ver os seres humanos como humanos e adotaram a visão de consumidores potenciais. A política cada vez mais apóia as grandes empresas com esquemas de favorecimentos em troca de dinheiro. A natureza virou um recurso gratuito a ser explorado. A comida virou produto químico. E o diferente virou o inimigo que precisa ser aniquilado.

É difícil enxergar essa realidade sem se sentir sem saída. Como eu faço para não estar contribuindo com tudo em que eu não concordo e não acredito? E o documentário é justamente sobre isso: qual é a solução, afinal? Obviamente que a solução não é uma fórmula pronta, mas uma série de pensamentos que te levam a refletir sobre como você quer agir.

Para mim, uma das coisas mais fortes do filme foi uma entrevista com Samdhong Rinpoche, (primeiro ministro do Tibet, especialista em Ghandi e tutor do Dalai Lama), em que ele disse que o problema não era o poder das pessoas ruins e sim a falta de atitude das pessoas boas. Eu sei também que é difícil ser uma pessoa que não adota os padrões da sociedade porque nós acabamos nos sentindo isolados e o ser humano nasceu para viver em comunidades.

Samdhong diz que nós não precisamos nadar contra a maré, basta apenas que a gente saia do rio e fique à margem.

Se você comer uma comida mais natural, fizer uma hortinha em casa, em vez de comprar aquele prato congelado da Sadia, se você não disseminar o ódio nos meios digitais ou reais, não discriminar o diferente de você, se você consumir menos, se checar que a empresa da qual consome não utiliza trabalho escravo ou crueldade com animais, se você pensar no lixo que produz, acredite, você já estará fazendo muito.

 

 

Se você acha que tudo isso dá muito trabalho e que é melhor ignorar e continuar vivendo a sua vidinha com a cara grudada no seu mobile de última geração fabricado na China, espero que a sua realidade seja diferente dessa imagem abaixo.

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Em um mundo de consumo cada vez maior, tudo que as pessoas desejam é amor e felicidade, mas isso não está a venda, nem vem com o seu sucesso nas redes sociais.

Pare um instante lembre da última vez em que você se sentiu muito feliz: o que estava envolvido?

 

 

 

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