Os óculos das minorias

 

Nessa última semana dois assuntos que foram destaques nas mídias sociais chamaram minha atenção: o dia da luta contra a descriminalização do aborto e a primeira coleção da marca Christian Dior pensada por uma mulher. Como pano de fundo das duas situações a luta pelo direito de igualdade de gênero.

Empatia é uma palavra que ouvimos e repetimos com muita frequência mas que, aparentemente, poucas pessoas pararam para refletir sobre o seu real significado. Segundo o dicionário Houaiss, empatia é o processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro. Eu não sei vocês, mas eu vivo em um mundo em que empatia é coisa rara. Cotas raciais e sociais são consideradas sustento de vagabundagem, mulheres não estão inseridas em cargos altos da sociedade porque não querem, são estupradas porque usaram roupas curtas ou tiveram um determinado comportamento. Deficientes e idosos não encontram estrutura física adequada para circular pela cidade. E tudo bem. As minorias que se adaptem ao mundo construído por homens brancos, heterossexuais, de meia idade e com poder aquisitivo.

Na última quarta-feira foi o dia da luta pela descriminalização do aborto. No twitter a hashtag “precisamos falar sobre aborto” esteve em destaque durante todo o dia. A Anistia Internacional considera o aborto uma questão de saúde pública e direitos humanos e não como um crime. 98% dos países do mundo permitem o aborto, pelo menos quando a vida da mulher está em risco, e dois terços permitem a prática quando a saúde física ou mental da mulher estiver em risco. No entanto, sete dos nove países que ainda criminalizam o aborto sem exceções expressas estão na América Latina e Caribe.Segundo a Organização mundial da Saúde (OMS) existe uma clara correlação entre a criminalização do aborto e a morte de mulheres por este motivo. A morte materna foi três vezes mais alta em países com leis restritivas ao aborto. A criminalização não provoca uma diminuição do número de abortos, e sim o aumento da mortalidade materna, fato que desrespeita os direitos humanos.

E isso tem tudo a ver com igualdade racial, social e de gênero, afinal, quem mais morre por abortos clandestinos no Brasil são mulheres pobres e negras. E isso não quer dizer que apenas essas mulheres praticam o ato. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero em 2010, a mulher que aborta no Brasil, é casada, religiosa, tem filhos e condição social boa. Mas quem morre, é quem não pode realizar o procedimento de forma segura por não ter condições financeiras. O aborto é uma realidade do universo feminino, e sua criminalização é a forma mais perversa de controle do corpo da mulher pelo Estado.

“A criminalização faz parte de um sistema organizado para que mulheres não tenham autonomia para decidir sobre seus corpos. O Estado estabelece regras no âmbito da reprodução, as quais evidenciam que a mulher não é dona de si”

                                                                         Sonia Correa, coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política

É verdade que as mulheres já avançaram bastante no tocante à direitos, isso não significa, porém, que ainda não haja um longo e árduo caminho pela frente. Grandes conquistas pela igualdade entre homens e mulheres ocorreram muito recentemente, há menos de cem anos. A sociedade não tem muita vivência de uma convivência mais justa e igualitária, e todos nós encontramos dificuldades para conseguir enxergar além desse meio em que fomos ensinados a atribuir papéis por gêneros, orientação sexual, classe social e raça. Uma comparação bastante válida é associar a cultura da desigualdade às lentes de um óculos por meio do qual enxergamos o mundo.

we-should-all-be-feminists

Hoje mesmo vi a notícia do desfile da marca de roupas Dior e achei o máximo uma camiseta com os dizeres “We should all be feminists”. Cliquei sobre o link e li a matéria que dizia, com naturalidade, que era a primeira vez, desde sua criação há 46 anos, que a marca colocava uma mulher para assinar suas coleções com a demanda explícita: queremos saber o que as mulheres querem.

Ah… Então apenas AGORA eles se importam com o que as mulheres querem? Antes era apenas natural que os homens decidissem quais roupas as mulheres deveriam querer usar. E nós estávamos bem com isso porque esse sempre foi o nosso padrão. Num passado não muito distante, as crianças do sexo feminino eram propriedade do pai. Quando cresciam, tornavam-se propriedade do marido. Fomos ensinadas que são os homens que decidem onde nós vamos, com quem nós vamos, com que roupa, que comportamentos são aceitáveis e quais não são.

O cenário ainda é muito desfavorável para qualquer minoria, sem dúvidas, mas estamos, aos poucos, conseguindo enxergar o mundo sem essas lentes culturais que tanto nos oprimem. A mudança pode ser lenta, mas ela já está em curso.

 

 

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

© 2018 Jornalista Digital | ScrollMe by AccessPress Themes