O que você faria?

No ano de 1980 o partido dos trabalhadores foi fundado, John Lennon foi assassinado por um fã, a TV Tupi fechou as portas, o papa João Paulo segundo visitou o Brasil, teve Olimpíada em Moscou com medalha do João do Pulo, Nelson Piquet perdeu o campeonato mundial de Fórmula 1 para Alan Jones. Nelson Rodrigues, Cartola, Vinícius de Moraes, Jean Paul Sartre, Piaget e Hitchcock deixaram esse mundo. E foi também em 1980, ainda na ditadura militar, que eu nasci. Completo, hoje, 36 anos de existência.

Quando eu era criança eu achava que os velhinhos (aqueles velhinho de antigamente, corcundas, de cabelos ralos e brancos) em um certo momento não se importavam de morrer. Tinha essa impressão porque, não raro, ouvia alguém mais velho dizer que o tempo deles já havia passado, que precisavam descansar, ou então que já tinham feito muito e outras coisas do gênero. Confesso que essa fantasia, de alguma maneira, me tranquilizava. Eu não precisava ter medo de morrer porque quando ficasse velha, isso seria natural.

Mas aí teve aquele livro do Oliver Sacks chamado “Gratidão” que cruzou o meu caminho. O neurologista e escritor inglês recebeu diagnóstico de câncer terminal aos 80 anos. Os médicos deram até 18 meses de vida a ele. O livro é uma compilação dos quatro últimos ensaios que Sacks escreveu ao jornal The New York Times abordando a sua doença e os sentimentos que a morte anunciada provocavam nele. Nos textos, o escritor afirma com todas as letras que não achava que estava pronto para morrer porque, mesmo doente, tinha muita vitalidade. Ele confessou que sentia medo da morte. Oliver Sacks acabou com a minha fantasia de uma morte fácil e sem medo. 

 

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Se você tem menos de 30 anos, talvez esse texto seja pouco interessante, zero apelativo e tenha nuances mórbidas até. Falar em morte bem no dia do aniversário é coisa de gente maluca. A maioria das pessoas evita o assunto em qualquer ocasião, mas desde que eu completei 30 anos não consigo deixar de pensar nisso todos os dias 2 de setembro. A sensação de que a vida passa rápido demais é constante e eu quero aproveitar ao máximo enquanto estou aqui. Eu não quero ter grandes arrependimentos, quero falar ‘eu te amo’ sem dificuldades para as pessoas por quem tenho amor, quero dar valor ao que importa e deixar de lado coisas pequenas, me livrar das mágoas e quero poder viver uma vida plena. Lembrar da morte faz a gente viver com mais vontade, faz a gente sair um pouco da internet e ir ver o que está acontecendo no mundo analógico.

Todos nós vivemos como se o amanhã fosse certo e penso que seria mesmo insuportável viver com uma espada na nossa cabeça nos lembrando a cada minuto que nosso fim pode estar próximo. Mas fazer essa reflexão vez ou outra pode ser muito útil para avaliar se realmente estamos levando nossa vida do jeito que nós queremos ou se estamos nos deixando levar pelo fluxo de coisas. Mário Quintana, tem um poema certeiro sobre esse fluxo de coisas que vamos levando no lugar da vida que desejamos:

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Mario Quintana
Mario Quintana

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

 

 

Se hoje eu soubesse que tenho apenas mais seis meses de vida eu iria querer viajar horrores, ia querer experimentar vários tipos de comida, ia querer passar o máximo de tempo possível com as pessoas que eu amo. Eu iria fazer apenas coisas que me dessem muito prazer: leitura, vinhos, esportes, amigos, artes plásticas e animais de estimação.

E assim, todo ano, vou realinhando as minhas prioridades de acordo com essas reflexões e consigo ir deixando para trás hábitos que me atrapalham a aproveitar a vida da maneira que eu gostaria. E você, faria o que se tivesse apenas mais seis meses de vida?

 

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