O problema de não termos empatia: Vogue, Cleo Pires e África.

Há tempos que tenho um olhar mais crítico do que muitos de meus colegas publicitários aprovariam sobre o material produzido pelas nossas agências. Não está em mérito se uma propaganda faz ou não sucesso, e sim a qualidade do material que estamos colocando em circulação no mercado e como isso afeta a nossa geração e as gerações futuras.

Em tempos de redes sociais, o sonho de qualquer empresa é ter um material positivo a seu respeito circulando em larga escala sem pagar quase nada por isso: viralizar. Na época em que eu fazia faculdade, a publicidade era um mercado que movimentava milhões já que a única opção de quem queria gerar buzz a seu respeito era comprar espaço em algum tipo de mídia. Com a web 2.0, as pessoas passaram a ter amplo acesso à opinião de pessoas do seu círculo de amizades e dar mais valor a indicações, textos, recomendações, sugestões, dicas dessas pessoas, de amigos de amigos. Todos nós viramos produtores de conteúdo. Nesse cenário, ficou muito mais difícil para a mídia tradicional alcançar a audiência de antes para a publicidade.

Talvez, por esse conjunto de fatores, tenho notado uma piora sistemática no nível das propagandas que as agências brasileiras produzem.  Muito embora dessa vez a mancada das Paralimpíadas provavelmente nem possa ser colocada na conta dos nossos publicitários, tendo em vista que a atriz Cleo Pires assumiu ser a “dona da ideia”. Ainda assim fica aquela pergunta no ar: por que os profissionais de comunicação da agência África concordaram com a ideia esdrúxula da atriz?

Enetenda o caso:

Na quarta-feira, 24 de agosto, pela manhã a revista de moda Vogue colocou no ar a campanha #somostodosparalímpicos com o objetivo de chamar atenção para os jogos e atletas paralímpicos.post-vogue-sobre-a-campanha

Acesse o link da campanha:

http://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2016/08/somos-todos-paralimpicos-campanha-com-cleo-pires-e-paulinho-vilhena.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post

 

A rede social Twitter teve uma reação imediata ao caso, com tuites de muitos usuários criticando o uso de atores “phtoshopados” para simularem atletas com deficiência. A grande questão levantada era: por que não usar os próprios atletas que por sinal, estavam presentes na sessão de fotos???

Voltamos então àquela velha questão de termos um padrão definido como “mais plástico” por um grupo de pessoas. Quem define o que é bonito, o que é estético são justamente as pessoas que trabalham com moda e mídia. A maioria de nós, no entanto, não somos vítimas, pelo contrário, somos os perpetuadores desse modelo.

A revista Vogue é a publicação de moda mais importante do mundo, responsável por transformar a moda em objeto de desejo das mulheres. Com uma circulação mensal mundial estimada em dois milhões de exemplares, a “Bíblia da Moda” não tem uma preocupação muito grande com a responsabilidade social. Apenas em 1966 a Vogue trouxe em sua capa uma modelo negra, por exemplo.

Ainda em 2016, a Vogue promoveu seu tradicional Baile de Gala com o tema África e mostrou ao Brasil como “homenagear” a cultura negra reunindo pessoas brancas vestidas de maneira caricata em um país com maioria negra que ainda luta contra o preconceito racial.

“Quando pessoas brancas “ditam moda” e tornam-se referência de estilo e beleza ao usar turbantes e dreads, isso configura apropriação cultural.

Apropriação cultural é quando uma cultura minoritária ou de alguma forma subordinada social, política ou etnicamente é apropriada por uma cultura dominante. No contexto brasileiro onde estamos inseridos, num país de 516 anos e quase 400 de escravização do povo negro, há que se considerar as implicações dessa “moda”. Temos a cultura vinda de negros como sendo subordinada a cultura branca/europeia, imposta e valorizada. As modelos, estilistas e marcas que lucram com a apropriação são brancos.”

Desabafo de Stephanie Ribeiro, estudante de Arquitetura da PUC de Campinas (SP) e ativista feminista negra para o Brasil Post

Em outra monumental bola fora, a Vogue Kids de setembro de 2014 teve determinação judicial de recolher seus exemplares das bancas por exibir um ensaio sensual de crianças.

vogue_sombra e agua fresca

 

Veja a resposta da Vogue ao ensaio sensual “Sombra e Água fresca” com crianças em poses sensuais: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/09/1515529-justica-manda-editora-recolher-revista-por-publicar-fotos-sensuais-de-meninas.shtml

Não satisfeita com tantos “closes errados”, a Vogue ainda embarcou na ideia de Cleo Pires e com ajuda de uma das maiores agências de publicidade do país, laçou uma campanha para chamar atenção para as Paralimpíadas com uma montagem de fotos ofensiva às pessoas com deficiência. Da mesma forma que o blackface é ofensivo aos negros, essa montagem é ofensiva às pessoas com deficiência. Talvez a Cleo, os profissionais

Com o tamanho da repercussão negativa, tanto a revista quanto a atriz tiveram que se pronunciar:

Pra quem REALMENTE tiver interesse em ENTENDER e não ficar destilando veneno de inveja e recalque vai lá no snap @cleoayrosa

Um vídeo publicado por Cleo Pires. Atriz/Actress (@cleopires_oficial) em

Me impressiona bastante a capacidade de ausência de empatia que algumas pessoas brancas, bonitas, com alto poder aquisitivo vêm demonstrando paulatinamente em relação às minorias e suas causas. Pode ser que seja mesmo difícil a gente se colocar em um lugar tão diferente do nosso, mas é necessário fazermos sempre esse exercício para que não fiquemos presos em uma realidade paralela. E foi exatamente esse exercício que faltou à equipe responsável pela campanha #somostodosparalímpicos.

Por fim, como último argumento contra a apropriação cultural das pessoas com deficiência, deixo aqui a capa da Revista TPM desse mês (aliás, recomendo fortemente a leitura de qualquer edição dessa revista) e um comercial britânico sobre as Paralimpíadas Rio 2016:

capa-revista-tpm

 

 

Veja as reações nas redes sociais a respeito da ideia de Cleo Pires:

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Outras ideias da Cleo Pires que você não sabia que eram dela:

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