O Brasil monoesportivo e seus dramas

Teve gente dizendo que proibir as vaias era imperialismo cultural, outros disseram que a vaia era a representação da cultura de ódio que se instalou no Brasil, li, ainda, a teoria de que pobre não vaia, essa manifestação seria coisa de torcedor rico e eventual. Eu estava lá, presenciei esse fenômeno cultural, e não concordo com nenhuma dessas análises.

Eu mal estava acreditando que ia assistir ao Djokovic nas Olimpíadas do Rio de Janeiro! Jogo tênis há alguns anos e com a prática fui pegando o gosto por assistir ao esporte. Casada com um viciado em tenis, já assisti a alguns torneios fora do país e tive o privilégio de ver alguns dos maiores jogadores do esporte. Mas faltava o atual número 1 do mundo. Quando compramos os ingressos não sabíamos quem iria disputar a partida, portanto eu me considerei uma privilegiada quando soube que iria assistir a Djoko e Del Potro.

Novak Djokovic é o jogador de tênis número 1 do mundo. Com apenas uma medalha olímpica de bronze, ele veio ao Rio tentar conquistar a medalha de ouro no momento em que estava no auge da sua carreira. Como adversário, o argentino Juan Martin Del Potro, que chegou a ser o 4º melhor jogador do mundo em 2010 e ficou quase 6 anos afastado do esporte por causa de uma lesão no pulso.

Pois lá estava eu na quadra de tênis, acompanhada do marido e de uma amiga, ansiosa por assistir àqueles dois gigantes do esporte, quando de repente ouço vaias para Del Potro. Fiquei alguns momentos para entender o que havia acontecido e então percebi o grande pecado que ele cometera: ser argentino. Vaias mais intensas ainda eram ouvidas quando a torcida argentina tentava incentivar seu ídolo.

Mesmo sob toda essa pressão, ouvindo xingamentos e gritos fortes para calar a torcida argentina, Delpo fez uma linda partida e conseguiu ganhar do sérvio. Foi um jogaço! Mas eu fui para casa indignada com a torcida brasileira que estava naquele jogo. Por que, afinal, os argentinos não podiam torcer??? E que lógica doida é essa que, por causa da rivalidade no futebol, um grande jogador de tênis merece ser vaiado em um dos momentos mais importantes de sua carreira?

Para aqueles que não estão familiarizados com o esporte, o tênis preza pela cordialidade, pelo cavalheirismo, pelo politicamente correto. Se um jogador faz um ponto porque o outro errou sem ser forçado pelo adversário, é praxe não comemorar. Se o ponto foi conseguido com uma bola que tocou na rede e desviou o caminho, pede-se desculpas. O silêncio em quadra é essencial para a concentração dos jogadores e as manifestações da torcida têm de ser entre os pontos.

No dia seguinte havia mais jogos de tênis para assistir. Eu estava incomodada com a reação dos torcedores no dia anterior, mas não imaginava que fosse me incomodar ainda mais. A segunda partida do dia era novamente do Del Potro, dessa vez contra um português, João Sousa. Eu estava impressionada que o jogador argentino havia saído de quadra quase meia-noite no dia anterior depois de um jogo bem puxado e no dia seguinte já estava em quadra de novo às 13:30h. Mas a torcida brasileira ignorava qualquer fato, o único foco era “malhar o argentino”. Certamente o fato de Portugal ter sido nosso colonizador e de termos sido explorados e roubados até onde foi possível não era relevante diante da velha rivalidade com a argentina.

Comecei a pensar que era mesmo inevitável que pessoas que têm como costume torcer para o futebol 90% do tempo soubessem como agir diante de outras modalidades. Pela quadra de tênis central era possível observar várias bandeiras de time de futebol, gritos típicos de jogos de futebol e, pasmem, até mesmo uma briga, com troca de socos, eu tive a infelicidade de presenciar. Isso é algo inimaginável no universo do tênis.   

Não me entendam mal, eu não estou aqui para condenar a falta de educação da torcida brasileira. Na minha reflexão a torcida fez o que sabe fazer: torceu como se estivesse em um estádio de futebol assistindo ao Fla x Flu. O problema é que nos tornamos um país monoesportivo e isso é absolutamente catastrófico para a nossa cultura. Não sabemos quais são as liturgias de outros esportes, não valorizamos tanto outras modalidades em que os brasileiros não se destacam. Isso gera cada vez menos incentivo a esportes diferentes. E esporte, no geral, tira muita gente de caminho errado, ensina disciplina, educa, dá oportunidades que não dependem de dinheiro ou classe social.

Acompanhei com bastante interesse a repercussão sobre o comportamento da torcida brasileira na imprensa nacional e internacional. Os atletas se sentiram incomodados. Segundo a organização do evento, cerca de 70% dos ingressos foram vendidos no Brasil. Ou seja, o torcedor brasileiro não está acostumado a torcer em outras modalidades que não seja futebol ou vôlei. Não estamos acostumados a olharmos a Argentina em outros esportes,  é preciso separar a rivalidade do futebol de outros tipos de rivalidade.

Era possível perceber nas arenas de tênis, judô, ginástica artística, tiro e natação gritos e vaias para atrapalhar o oponente em momentos críticos, atitudes que não condizem com a cultura de outros esportes, atitudes que desrespeitam atletas que colocam um tempo de preparação de, no mínimo, quatro anos para estarem ali, naquele momento. Li muitas declarações de atletas dizendo que não entendiam o que haviam feito para os brasileiros para serem vaiados daquela forma. Ficou muito ruim para a gente.

Mas afinal, que medidas poderiam ser adotadas para corrigir essa situação? Na minha visão a melhor atitude seria a longo prazo: mais investimento em outros esportes nas escolas para abrir mais possibilidades para que as pessoas tenham contato com várias modalidades e suas liturgias.

A curto prazo, era possível que antes das apresentações de cada modalidade, um vídeo fosse passado nos telões explicando a importância do silêncio em certos momentos para cada esporte. Voluntários também poderiam ajudar nessa tarefa distribuindo folhetos pelo parque olímpico.   

O diretor de comunicação da Rio 2016, Mario Andrada, a princípio tentou ignorar as críticas às vaias da torcida, mas conforme os dias iam passando, a pressão dos atletas e da imperensa internacional acabou fazendo ele tomar outro posicionamento. O Comitê lançou uma “campanha” nas redes sociais chamada #HermanosOlímpicos na qual atletas famosos pedem mais respeito da torcida em vídeos curtos. Uma campanha feita às pressas, mal executados e com um plano de mídia fraquíssimo. Eu mesma só fiquei sabendo porque estava atrás da repercussão das vaias.

Abaixo, vídeo do Gustavo Kuerten publicado no instagram dele em apoio à campanha Hermanos Olímpicos

 

De certo que nunca deixaremos de ser o país do futebol, nem é isso que deveria acontecer. Mas não podemos ser um país de um esporte só, com uma tradição reduzida a odiar nossos hermanos. A variedade é benéfica porque amplia o leque, dando mais oportunidades para outros tipos de talentos e desafogando um esporte saturado.

 

Leia mais sobre o assunto:

Matéria da EBC sobre as vaias da torcida brasileira: http://agenciabrasil.ebc.com.br/rio-2016/noticia/2016-08/vaias-da-torcida-incomodam-e-imprensa-estrangeira-questiona-rio-2016

Matéria da Folha sobre o compartamento das torcidas nos jogos Olímpicos: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/08/1800600-brasileiros-irritam-estrangeiros-ao-vibrar-nos-jogos-como-em-estadio-de-futebol.shtml

Matéria do G1 sobre a repercussão internacional das vaias brasileiras: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2016/08/desrespeitosa-ou-torcida-de-verdade-olimpiada-das-vaias-repercute-na-midia-e-redes-sociais-no-exterior.html

Matéria sobre o reforço do pedido de silêncio do COI e do Comitê Rio 2016: http://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/especiais/olimpiadas/jogos2016/jogos2016-noticias/2016/08/09/noticia-jogos2016,343155/coi-reforcara-pedidos-por-silencio-e-condena-vaias-em-competicoes-da-olimpiada-do-rio.shtml

Análise da revista Época sobre o comportamento da torcida brasileira: http://epoca.globo.com/esporte/olimpiadas/noticia/2016/08/vaias-e-gritos-torcedor-brasileiro-nao-sabe-se-comportar.html

Repercussão da Carta Capital sobre o assunto:

http://farofafa.cartacapital.com.br/2016/08/17/o-pobre-nao-vaia-atleta-quem-vaia-e-o-rico/?utm_content=buffer078d3&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

 

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