O choro é livre

Responda muito rápido: Quando você ouve o nome Bráulio, qual é a primeira coisa que lhe vem à mente?

Pois em 1996, o Ministério da Saúde colocou no ar quatro filmes para incentivar o uso de camisinha. Na irreverente campanha publicitária, um homem conversa com o seu órgão sexual (chamado Bráulio) sobre a necessidade de usar camisinha.

Em pouco tempo no ar, o comercial deu o que falar e virou tema de dezenas de piadas. Braúlios e pais de Bráulios ficaram revoltados. Deve ter sido um dos primeiros casos de bullying coletivo provocado pelo governo. A campanha rapidamente foi tirada do ar, mas a polêmica em torno do assunto não terminou ali. Crescidos, alguns Bráulios entraram na justiça, dizendo terem sido vítimas de danos morais em brincadeiras feitas pelos amigos. Até onde foi possível pesquisar pela internet, nenhum deles obteve sucesso. Outros Bráulios pediram autorização na justiça para trocarem o prenome alegando constrangimento público por conta da campanha de 1996.

Em 2015, a coca-cola fez uma bela ação de marketing colocando mais de 600 nomes em suas latas e garrafas, gerando um buzz enorme sobre a ação e uma corrida ao mercado mais próximo para conseguir esse ou aquele nome. Era comum a gente ver pessoas revirando prateleiras atrás de determinados nomes. De acordo com a empresa, os nomes foram levantados pela marca por meio de uma pesquisa encomendada e abrangiam 90% da população de adolescentes do país.

Mesmo com uma campanha tão bem sucedida, a Coca-cola foi questionada sobre os nomes de pessoas mais humildes, como Kellen e Uélerson no vídeo de humor do grupo Porta dos Fundos “Na Lata”:

Rapidamente, a marca divulgou em sua página nas mídias sociais a seguinte imagem:

coca-numa-boa-portadosfundos

Alguns acusaram a Coca de ter combinado a ação com o grupo Porta dos Fundos, outros a acusaram de elitista. O fato é que a marca fez uma ação direcionada a seu público-alvo corretamente e não previu as consequências negativas que isso poderia ter.

Lembro de ter visto algumas vezes máquinas de Coca-cola em eventos e festas privadas que imprimiam o nome da pessoa na hora em uma latinha, provavelmente para tentar corrigir a lacuna que havia ficado. A que ponto a empresa teve de chegar para não desagradar gregos e troianos…

Embora a Coca-cola tenha se beneficiado muito mais com a ação, eu considero desnecessária essa pequena mácula de ter sido acusada de elitista.

Ingenuamente, refleti que publicitários e marqueteiros do mundo já haviam compreendido que mexer com o nome das pessoas é mexer com a sua identidade, com a forma com que elas se vêem no mundo. Mas eu estava redondamente enganada… A Sadia resolveu fazer uma das propagandas mais esdrúxulas dos últimos tempos usando um nome próprio para se referir a um produto que ninguém quer: o Luis Augusto.

A partir de então surgiu uma polêmica sobre o uso do nome próprio “Luis Augusto”  pela Sadia culminando na abertura de um processo no Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). O órgão, por sua vez,  informou que foram recebidas mais de 130 reclamações de consumidores, a maioria de pessoas que se chamam “Luis Augusto” ou de pais de “Luizes Augustos” que não acharam a menor graça na brincadeira.

O artigo 17 do Código Civil estabelece que “o nome de uma pessoa não pode ser empregado por outros em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda que não exista intenção difamatória”.

Em sua página no Facebook, a marca de presuntos se defendeu postando um vídeo resposta que reforça o conceito de que Luis Augusto não é bom. Bastante infeliz a tentativa de melhorar a situação.

O julgamento pelo Conar deverá ocorrer ainda em setembro.

Em tempos de combate ao bullying e da civilização do espetáculo, que transformou a publicidade em uma entidade decisiva de gostos, sensibilidade, imaginação e costumes, comandada por nossos nobres anônimos “diretores de criação” das agências publicitárias, uma marca com o peso da Sadia aprovar uma campanha publicitária tão em dissonância com a direção que a sociedade está trilhando me parece, no mínimo, uma imbecilidade.

Porém, mais imbecil do que a aprovação da campanha é a insistência da marca em manter uma postura irreverente mesmo diante de tantas críticas e reclamações. Entendo que o custo de produzir as peças são enormes e, depois de aprovada a campanha será preciso muito mais dinheiro caso se queira mudar a direção da ação, mas como mensurar o quanto a Sadia já perdeu em imagem institucional só por conta dessa polêmica toda?

E como mensurar o quanSem-Título-1to a marca ganhou de visibilidade em cima de uma propaganda que faz chacota com um nome e provoca o bullying? Esse post na página da marca mostra a discrepância entre as postagens anteriores com média de 10 a 30 compartilhamentos e a publicação com mais de 10 mil compartilhamentos que viralizou nas redes sociais. Essa semana a hashtag Sadia foi trendtopic do Twitter também. Mas essa repercussão toda não é por causa da genialidade da propaganda, e sim pela polêmica que ela tem causado.

De um lado os defensores de uma postura politicamente correta, anti-bullying. De outro aqueles que chamam o politicamente correto de mimimi. E no meio desses dois grupos, uma marca consolidada no mercado querendo aumentar suas vendas.

Por óbvio que pelo tom desse texto é possível perceber o quanto sou contra publicidade com esse tipo de conteúdo. Na minha reflexão é um desserviço à sociedade associarmos cerveja ao corpo de mulheres, cigarros a um estilo de vida invejável, ou nomes específicos a produtos ruins. Penso que os publicitários deveriam se imbuir de mais responsabilidade social, deveriam enxergar o tamanho da importância que um filmete pode ter na vida das pessoas. Entretanto, consigo compreender que a lógica capitalista de mercado favorece a criação desse tipo infeliz de propaganda.

A Sadia e sua agência de publicidade não aprenderam nem com o fracasso retumbante do Bráulio, nem com o sucesso maculado da Coca-cola, e insiste em trilhar o caminho do politicamente incorreto com o apoio daqueles que não conseguem ter empatia por outros. Nós, daqui, só podemos lamentar…

Segue íntegra da nota oficial divulgada pela Sadia: “A Sadia esclarece que, como obra de ficção, as semelhanças e a escolha do nome Luís Augusto para a campanha são mera coincidência, à exemplo do que já observamos na teledramaturgia. Portanto, o filme segue o mesmo tom irreverente e característico das campanhas publicitárias da marca, como o clássico bordão “Nem a pau, Juvenal” ou quando o fatiador de frios oferece um tijolo ao consumidor, que pediu para “dar uma olhadinha” no presunto que não era da marca Sadia. Líder na categoria de presunto no País, o principal objetivo da ação é ressaltar a alta qualidade do produto da marca, que tem expertise no segmento e excelência no processo de produção”.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

© 2018 Jornalista Digital | ScrollMe by AccessPress Themes