O diferente de ontem é o normal de hoje

 

Em uma semana agitada nas redes sociais, confesso que foi difícil escolher um único tema. O padre francês que foi degolado, o discurso de Michelle Obama, as Olimpíadas, a comoção do Twitter no caso #savemariajoyce ou a ótima hashtag #BielRespeiteAsMulheres e seus desdobramentos? Ah, não teve jeito, meu coração bateu mais forte com o discurso da Dona Obama.

Há oito anos quando Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos e um negro havaiano se tornou o homem mais poderoso do mundo, lembro muito da frase destaque que um amigo diplomata deixou no Orkut (sim, eu sei… o falecido Orkut): “OBAMA TIME”. À época eu não era tão envolvida com a vida política do Brasil, quiçá com a política internacional. Mas a tal frase me intrigava pelo otimismo contido naquelas duas palavras: quase um prenúncio de uma nova era. Isso não seria muito pretencioso?

Não seria, como o tempo mostrou. O havaiano assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2009, em meio a uma grande recessão. Para tentar aplacar os efeitos da crise, cortou impostos para a classe média e criou um programa para gerar empregos. Foi ele quem retirou as tropas americanas do Iraque, quem autorizou a operação que aniquilou Bin Laden. Foi tamabém Obama que propôs uma política

interna de controle de armas, que defendeu os direitos LGBT, que reestabeleceu as relações entre Cuba e EUA, que dançou “Single Ladies” de Beyoncé com a mão. Definitivamente, uma nova era para os Estados Unidos.

Obama fazendo a coreografia de Single Ladies com a mão
Obama fazendo a coreografia de Single Ladies com a mão

E Michelle nessa história toda? A primeira-dama não ficou para trás. Ainda na fase de campanha para a primeira eleição de Obama, Michelle afirmou viver em um país onde se supõe que ela não deveria estar ali, escancarando o massacrante preconceito contra os negros nos Estados Unidos. Sem medo de dar opinião, duas semanas depois de ter se mudado para a Casa Branca, ela fez um discurso sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Uma das primeiras mulheres negras em Princeton e Harvard, Michelle faz questão de não seguir os protocolos da Casa Branca e se envolve diretamente com as comunidades em seus programas de luta contra a obesidade infantil, em projetos de assistência a veteranos de guerras ou em visitas a colégios em bairros pobres.

 

Michelle Obama luta contra a obesidade infantil incentivando a prática de exercícios físicos.
Michelle Obama luta contra a obesidade infantil incentivando a prática de exercícios físicos.

 

Incrivelmente, ao sentar para escrever esse texto e digitar “Michelle Obama” na busca do google, encontrei bastante informação sobre a sua elegância, sobre como ela se veste, sobre o seu papel fundamental de mãe e esposa, mas muito pouca coisa sobre o seu trabalho como primeira-dama.

Em seu discurso Michelle Obama afirma que se orgulha de acordar todos os dias em uma casa que foi construída por escravos e poder ver suas filhas, duas lindas e inteligentes meninas negras, brincar no quintal dessa casa. Essa frase, apenas essa frase, resume bem a era Obama que meu amigo tanto esperava. Mas Michelle foi além, e disse que, por causa de Hillary Clinton, as filhas dela vivem em um mundo em que é possível uma mulher ser presidente dos Estados Unidos da América.

 

Foi bonito ver esse empoderamento de minorias “viralizar” nas redes sociais essa última semana. Mas é triste perceber que ainda precisamos compartilhar ávidamente esse tipo de conteúdo para tentar “conscientizar as outras pessoas”. Afinal, se tantas pessoas são contra o preconceito racial, contra a homofobia, contra a discriminação religiosa, por que esses males ainda não foram erradicados da sociedade?

Na minha reflexão a geração que está crescendo agora vai viver em um mundo onde as diferenças não importarão tanto. Mas se você cresceu nos anos 80 e 90 (ou antes até), você cresceu em um mundo cruel com os diferentes e, dentro de nós, ainda resta preconceito de algum tipo. Eu sei, é difícil admitir isso. É horrível. Mas ele está lá.

Obviamente que esse preconceito latente não é daquele tipo em que nos declaramos  racistas, homofóbicos ou contra o avanço feminino. É aquela discriminação velada em que você prefere contratar um homem por ele não ficar grávido, ou que você pergunta pra um rapaz “mais moreninho” no mercado onde está o arroz integral. É algo tão automatizado em nosso comportamento que talvez você nem perceba.

Por mais que a gente discuta essa questão das minorias, e ainda que nosso posicionamento seja por mais justiça social, em algum momento da vida você vai se perceber (ou já se percebeu) tendo uma atitude que não combina com esse discurso. Penso que isso acontece porque foi a nossa geração que iniciou esse processo de mudança, que começou a apontar os erros e as injustiças com as minorias e nós não tivemos modelos do funcionamento da minoria totalmente integrada na sociedade.

Felizmente, a geração que está crescendo vai vir com muita tranquilidade para conviver com os diferentes. Isso porque, hoje, o cargo de presidente dos Estados Unidos pode ser de um negro ou de uma mulher ou de um homossexual. Hoje, pessoas do mesmo sexo podem formar famílias. Hoje, a mulher pode sair para trabalhar enquanto o homem fica em casa. Os modelos para a geração que está crescendo são tão diversificados que eles só podem achar normal aquilo que para nós, um dia, foi diferente.

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