Prisioneiros de nós mesmos

Essa semana a carta que a atriz Jennifer Aniston soltou sobre a sua suposta gravidez fez com que alguns veículos de imprensa e jornalistas olhassem para si de uma maneira diferente. Revistas que falam de moda e pregam o ideal da magreza, divulgam há anos um modelo de mulher que apenas 1% da população do mundo consegue ser. E Jennifer fez uma crítica ferrenha a isso.

Na tal carta Jennifer nega a gravidez e levanta duas questões:

Existe uma pressão absurda da mídia em querer vê-la casada e com filhos. Como se isso garantisse a felicidade de alguém, como se o desempenho desses papéis fosse crucial para uma mulher se definir . Ela declara que as mulheres podem se sentir completas com ou sem companheiro, com ou sem filhos.

O outro tópico que ela aborda é justamente esse padrão criado para encaixar a beleza das mulheres que é reforçado pela mídia paulatinamente. Se ela está com uma barriguinha protuberante, então tem que estar grávida? Ela não pode ter comido um hambúrguer antes do almoço? Não pode achar que fica melhor daquele jeito? “Somos nós que decidimos o que fica bonito nos nossos corpos” ela diz.

Jennifer Aniston há anos é perseguida pelos paparazzi ávidos por uma gravidez.

Lembro até hoje a primeira vez que ouvi a palavra paparazzi: foi quando a Lady Di acabou morrendo após um acidente de carro em Paris fugindo justamente desses fotógrafos. Na época levantou-se uma grande discussão sobre os limites da intimidade das figuras públicas, tema que vira e mexe é levantado por algumas vozes independentes. Mas depois da comoção mundial com Diana, pouca coisa mudou de fato.

Algo curioso que aconteceu com a carta de Jen foi a publicação de seu texto crítico pelos veículos de imprensa, responsáveis por reforçar o padrão estético da magreza. É até engraçado pensar que as revistas de moda e comportamento feminino colocam meninas que não representam o corpo de mulheres reais e ainda assim tiveram que publicar uma quase assunção de responsabilidade.

Não tenho dúvidas de que os editores e jornalistas são, em alguma medida, causadores da perpetuação desse modelo, mas eles não podem ser os únicos responsáveis. Afinal, se nós não consumíssemos as revistas, propagandas, filmes que exaltam esses padrões, eles não seriam tão fortes.

A atriz Luana Piovani recebeu uma ligação de uma dessas revistas femininas pedindo a opinião dela sobre a carta de Jennifer Aniston. Luana fez um vídeo para contar a resposta que ela deu à publicação, apontando a culpa justamente para os jornalistas. No vídeo, inclusive, Luana aparece de cara lavada e mostra sua mais nova espinha.

Concordo em partes com a atriz. Na minha reflexão nós somos tão responsáveis quanto a mídia. Nós, que queremos dar opinião na traição do Marcelo Adnet, que levantamos suspeitas sobre o motivo da Luiza Brunet não ter denunciado o companheiro antes, nós que nos comovemos com a morte do cachorro da Kéfera, que estamos ávidos por saber sobre detalhes íntimos de pessoas que muitas vezes sequer admiramos.

Não pude deixar de pensar em Mario Vargas Llosa, escritor peruano, que define nossa civilização atual como a civilização do espetáculo. Nesse conceito, o autor acredita que a cultura se aproxima cada vez mais do entretenimento e se afasta da reflexão, em que qualquer empreendimento que exija algum esforço intelectual maior tende a ser rejeitado pelo leitor/consumidor em busca de prazeres fáceis e instantâneos, “que os imunize contra a preocupação e a responsabilidade”.

Na minha visão, os paparazzi, as revistas “de fofoca”, as especulações sobre a vida íntima de outras pessoas são o auge da civilização do espetáculo. E nós, seres humanos que vivemos em sociedade, vamos nos aprisionando na nossa própria imbecilização.

Para saber mais:

Carta aberta da Jennifer Aniston: http://www.huffingtonpost.com/entry/for-the-record_us_57855586e4b03fc3ee4e626f?

Luana Piovani sobre o caso: https://www.facebook.com/luanapiovanioficial/

(publicação do dia 13/07/2016 às 13:06)

Mario Vargas Llosa sobre a Civilização do Espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=yWDgjPjp1S8

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