Por que a publicidade não muda?

Antes de o leitor dar um pulo da cadeira e enumerar mil maneiras de evolução da publicidade peço um pouco de paciência para acompanhar meu raciocínio. A publicidade evolui sim, de acordo com a tecnologia e a linguagem, mas os conteúdos e conceitos, esses continuam os mesmos.

Não é impressionante que nesse momento de definição do impeachment a gente perceba tantas pessoas falando em mudança e tão poucas realmente dispostas a serem agentes transformadores? Sim, porque mudança política, na minha opinião, não é trocar um governo por outro, mas propor uma nova dinâmica para política, pensar a participação política de formas diferentes do caquético sistema representativo, inovar. Quem é que está fazendo isso no Brasil hoje?

Pois do mesmo mal padece a publicidade e o jornalismo. Logo a área de comunicação, que forma as mentes criativas, que deveria ser inovadora, puxar a transformação, mas não, cá estamos nós, enfrentando as mesmas propagandas que exploram o corpo da mulher há anos, ou lendo os mesmos jornais parciais de sempre e internalizando velhas opiniões como verdades.

Deixo para a neurociência responder por que o ser humano tem tanta sede de mudança e tanto medo dela ao mesmo tempo. A nós, comunicadores modernos, cabe tentarmos ao máximo sermos os agentes transformadores, enxergarmos além da velha fórmula que dá certo.

A Heineken é um belo exemplo de cerveja que faz propaganda sem explorar o corpo feminino. Veja bem, a marca brinca com as diferenças entre os sexos, como no caso do famoso comercial do closet, porém não trata a mulher como objeto, e isso, é salutar. A mesma linha segue a Bohemia: propagandas sobre o sabor da cerveja, nada de relação entre bebida e mulheres super saradas. Afinal, quem acredita que vai abrir uma Itaipava e encontrar a Verão???

Também acho um desserviço à nossa sociedade aquelas propagandas em que parece que o mundo é uma festa e só você não foi convidado porque não consome aquele produto. A mulher que idealiza a família feliz da margarina, o homem que gostaria de ter todas aquelas belas mulheres da propaganda do desodorante, as pessoas que desejam estar na festa da Campari. Seremos todos frustrados se nos medirmos pelo mundo da publicidade.

Que mundo nós estamos permitindo que nos vendam?

Hoje mesmo fiquei chocada ao me deparar com uma propaganda em rede social que incita a relação entre ciúmes e violência. Segue a foto:

publicidade-sexista

Minha primeira reação foi de indignação: escrevi uma mensagem enorme pra marca. Em seguida refleti sobre qual é o caminho que nós comunicadores queremos para o futuro da nossa área e como isso pode impactar a sociedade.
Aproveitar o dia dos namorados para fazer uma camiseta de namorado ciumento e colocar a mulher (sempre ela, a louca dos relacionamentos) com luvas de boxe pra mim é o fundo do poço da criatividade. É a exploração do lado mais podre do ser humano. É uma tentativa de exaltar algo que não deveria ser aceito. Pensemos juntos: e se fosse o contrário? Se o homem estivesse com luvas de boxe, o movimento feminista estaria escandalizado, com toda razão. Por que então a mulher com luva de boxe pode?

Se você não consegue perceber o atraso que esse tipo de comercial traz para nós, então, querido leitor, você provavelmente não é público para esse texto. Se você percebe, eu faço um convite a sermos mais (muito mais) transformadores no nosso dia a dia. Use a comunicação a favor de um ambiente mais respeitável, mais educado, mais justo.

A mesma lógica vale para o jornalismo partidário, interesseiro, comprado. Leia fontes diferentes, não aceite apenas um posicionamento. Questione, sempre, o que aquele jornal ou revista podem estar ganhando com a defesa de um ou outro.

Se nós, cidadãos comuns, deixarmos de aceitar passivamente essa comunicação preconceituosa, politicamente incorreta e parcial com que nos deparamos todos os dias, então, em alguma medida, já estaremos sendo transformadores.

Vamos tentar?

Juliana Borges é publicitária, pós-graduada em Comunicação Pública e Processo Legislativo e especialista em mídias sociais.

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